Eu sempre estava preocupada. Não necessariamente com alguma coisa específica, as vezes havia um problema real, claro, mas em muitos momentos minha cabeça parecia ter dificuldade em simplesmente não estar resolvendo alguma coisa. Se nada estava acontecendo, ela encontrava alguma coisa para antecipar. Uma conta futura, uma conversa que talvez acontecesse, uma possibilidade ruim, uma decisão que ainda nem precisava ser tomada.
Era como se tranquilidade fosse apenas o intervalo entre duas preocupações.
E eu me acostumei tanto com isso que, durante muito tempo, nem percebi que estava vivendo assim. Achava que pensar demais era responsabilidade e que antecipar problemas era inteligência, se pá estar sempre preparada para alguma coisa era uma forma de proteção.
Então comecei a perceber uma coisa meio incômoda: em alerta eu ficava era maluca!
A mona então foi encontrar soluções e por surpresa; minha mente silenciou. Só que, em vez de reconhecer aquilo como paz, eu achei que estava melancólica. 😂 Eu estava acostumada a ter alguma coisa acontecendo dentro da cabeça o tempo inteiro. Preocupação, planejamento, antecipação, análise, possibilidades, problemas reais e problemas que talvez nem chegassem a existir. Então, quando isso diminuiu, eu estranhei e chorei muito. Não tinha uma grande angústia acontecendo, não estava esperando uma tragédia, não precisava resolver nada imediatamente. Eu simplesmente estava ali. E daí achei suspeito. "Ué... por que estou tão quieta?" Foi quase como se meu cérebro tivesse reduzido o volume e eu, que passei tanto tempo ouvindo barulho, tivesse confundido silêncio com tristeza. Então como toda boa observadora, comecei a observar o meu próprio comportamento para descobrir se havia alguma coisa errada comigo. Só que eu continuava fazendo minhas coisas, trabalhando, criando, conversando, cuidando da casa, planejando a semana, tendo ideias, rindo das coisas e até lidando com problemas. Eu só não não estava sendo perseguida pelos meus próprios pensamentos e isso foi muito curioso, porque percebi que talvez eu tivesse passado tanto tempo associando intensidade emocional à vida que a tranquilidade parecia falta de alguma coisa.
E não é que aquele papo de que até a paz pode parecer estranha quando você se acostuma com o caos é muito real? 😂 Nos primeiros dias, eu quase procurei um problema para chamar de meu. Não porque eu quisesse sofrer, mas porque eu simplesmente não sabia o que fazer com uma cabeça que não estava ocupada tentando prever a próxima desgraça.
Era como se eu tivesse passado tanto tempo funcionando no modo emergência que, quando finalmente não havia emergência nenhuma, meu cérebro perguntasse: “Tá, mas a gente não vai fazer nada?”
E aí você começa a inventar preocupação, lembra de uma coisa antiga, reabre uma conversa mentalmente. Pensa em alguma possibilidade que nem existe, dá aquela vontade de mexer em alguma coisa só para sentir que está acontecendo alguma coisa.
Porque o caos é familiar. E a paz, não.
E talvez essa seja uma das partes mais estranhas de sair de um estado permanente de preocupação: você precisa aprender a não criar movimento só porque está acostumada a viver em movimento.
Eu precisei perceber que não estava entediada, vazia ou melancólica. Eu estava tranquila, só não tinha reconhecido a sensação ainda.
E aí veio as provas práticas, verbalizar isso. Por exemplo, tive uma conversa com a minha sogra e, pela primeira vez, consegui responder sobre uma situação que durante muito tempo ocupou espaço demais na minha cabeça: não existe mais problema.
E eu fiquei quase emocionada comigo mesma. 😂
Porque aquilo tinha virado uma espécie de muleta mental, eu já não precisava necessariamente resolver nada sobre aquilo, mas continuava carregando a história, revisitando a dor, antecipando possíveis conflitos que nem sei quais eram, imaginando conversas que talvez gerassem gatilhos que nem iam acontecer. Era como se o problema tivesse terminado na vida real, mas continuasse tendo um contrato de aluguel dentro da minha cabeça. Até que, dessa vez, eu simplesmente olhei para a situação e mentalizei para mim mesma: “Mas isso já acabou mulher!”
E respondi como quem realmente acreditava nisso, sem explicar demais. Sem me defender achando que poderia ser atacada. Sem construir quinze cenários possíveis depois da conversa.
Só um grande e maravilhoso: é isso.
Estou começando a me acostumar com essa versão mais espiritualizada de mim. Mas não no sentido de ter virado uma pessoa que acredita que tudo acontece por uma razão, que basta pensar positivo e o universo resolve o boleto, calma! ainda não cheguei nesse nível de delírio.
É outra coisa, estou acreditando mais que a vida é bonita e que estou na direção certa e o passado já ficou lá atrás e ele não reverbera em mim.
E isso parece uma frase simples, mas para alguém acostumada a procurar o problema escondido em tudo, é quase uma revolução. Tenho me sentido muito mais tranquila, mais presente e, de alguma maneira, muito mais abençoada. Comecei a perceber coisas que antes passavam despercebidas porque minha cabeça estava ocupada demais tentando prever o que poderia dar errado.
Os problemas continuam existindo, a vida acontece haha, e essa seja a parte mais interessante. Eu não virei uma pessoa sem problemas, quando alguma coisa acontece, eu sento, penso, observo, procuro entender o que está sob meu controle e monto uma estratégia para resolver. Às vezes dá certo, às vezes preciso mudar o plano.. é a vida. Vida real, né?
Mas tem uma diferença enorme agora: Os problemas não me machucam mais do mesmo jeito. Eles chegam, eu olho para eles e penso: “Tá, vamos resolver.” e depois volto para a minha vida.
Talvez seja isso que eu estava procurando sem saber: não uma vida sem problemas, mas uma mente que não transforme cada problema em uma ameaça à própria paz.
E confesso que estou gostando bastante dessa versão; também confesso que muito dessa paz aprendi com uma pessoa muito especial, enquanto vejo ele desabrochar e se tornar ainda mais maduro e consciente. Ele me deixou mais tranquila, e essa tranquilidade fui me tornando mais espiritualizada, mais grata.
E, principalmente, parece que estou descobrindo que viver pode ser muito mais do que sobreviver ao próximo acontecimento.




As vezes o mais difícil não e encontrar a paz e depois de a encontrar saber o que fazer com ela
Como viver em paz não e um estado adquirido e uma aprendizagem