5 Comentários
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Avatar de Superdotada Surtada | JW

Ah, seu texto também fez chorar bastante. A maternidade, como só, já é bastante intensa e complicada. Existem todas as transformações que você falou no corpo da mulher, sentindo o bebê chutando na costela, ou a própria amamentação e comentários duros de gente que nunca vai perguntar se você precisa de uma comida quente e horas de sono.

Às vezes, mesmo diante de uma situação que já é naturalmente complexa, existem outras circunstâncias. Existem dificuldades no parto, dificuldades ainda maiores de recuperação. Existe abandono na gravidez.

E às vezes eu me pergunto.

Por que comigo?

Avatar de Maxine
Jul 28Editado

Seu comentário me emocionou, porque eu mesma já fiz essa pergunta. E, de certa forma, este texto também nasceu dela. Antes de qualquer coisa, eu sinto muito por tudo o que você viveu, nenhuma mulher deveria atravessar a maternidade carregando, além de todas as transformações, esse peso.

Durante muito tempo procurei a resposta dentro de mim. Pensava no que eu havia feito de errado, no que me faltava, no que eu poderia ter feito diferente. Até que, anos depois, minha filha, ainda pequena, olhou para mim e perguntou: "O que eu fiz de errado para ele não me amar?". Naquele instante, percebi que ela carregava a mesma culpa que um dia carregava. Eu desabei, chorei, não porque soubesse responder, mas porque precisava oferecer a ela um acolhimento que eu mesma nunca havia recebido. E foi a acolhendo que percebi algo muito simples: era tão fácil amá-la, tantas pessoas a amam. Eu a amo loucamente.. Então como ela poderia acreditar que havia algo de errado nela? E a partir daí notei o quanto teria sido possível transformar aquela nossa relação que um dia foi de amor em uma amizade, em uma parceria, apenas para que ela pudesse crescer cercada pela presença dos dois.

A pergunta que ela fez, me obrigou a elaborar internamente uma dor e transformar em clareza, e transformou profundamente a forma como eu enxergava essa história: algumas perguntas nunca encontram resposta dentro de nós, porque nunca nasceram em nós. Elas pertencem às escolhas, às limitações e às ausências do outro. Nunca foi sobre o nosso valor, mas sim; a covardia deles.

Espero, de coração, que você também encontre esse caminho. Não o caminho de esquecer o que aconteceu, mas o de deixar de carregar uma culpa que nunca foi sua, que um dia você consiga olhar para si com a mesma gentileza com que, tenho certeza, olha para quem você ama. Receba meu abraço e meu carinho. ❤️

Avatar de Dr. Glycon Luiz

Seu texto tem um apelo emocional genuíno que cumpre bem o que se propõe. A perspectiva que trouxe de um simpósio recente que participei partia de outro ângulo, mais técnico e talvez mais incômodo.

Racionalmente, não há vantagem alguma em ter filhos. O custo energético, especialmente para a mãe, é imenso. O que chamamos de amor materno e paterno é um mecanismo bioquímico desenvolvido ao longo de milênios para garantir a sobrevivência da espécie. Não é poesia. É biologia.

O que me parece mais urgente é a consciência prévia do que significa ter um filho. Ter um filho é morrer uma parte de si. Minha ex, queria muito ter filhos comigo, disse que eu seria um bom pai, mas eu fui honesto: só terei um quando puder garantir a ele qualidade de vida por toda a vida, não apenas até os dezoito anos. A maioria das pessoas tem filhos já pensando em se livrar deles na maioridade. Mas eles não pediram para nascer.

É justamente essa falta de consciência que gera os três cenários que você descreve: pais que abandonam, mulheres que se veem nessa situação sem nunca ter feito as perguntas certas, e ambos jogando uma criança numa sociedade que raramente oferece condições dignas de existência. Não há heróis nem vilões nessa história. Há humanos que passaram por um sistema educacional falho que nunca ensinou o peso real de gerar uma vida.

Antes de ter um filho, duas perguntas deveriam ser obrigatórias: a sociedade hoje é um ambiente saudável para trazer alguém ao mundo? E tenho recursos para amenizar os problemas dessa sociedade durante toda a vida dessa criança?

Quanto às funções, atribuir ao homem a obrigação de provedor financeiro por gênero é um equívoco. Isso depende da situação real de cada família. Não podemos pré-definir funções sem conhecer a realidade individual de cada um. Essa é também responsabilidade do Estado: garantir estrutura para que a distribuição de responsabilidades seja possível na prática, não apenas no discurso. Se não acabamos criando vilões individuais ou por gênero, sendo que todo o aspecto comportamental do homem e mulher, ambos são construções sociais, são sintomas. É preciso ir na raiz da questão, e quase sempre é educação. Educação de fato, não o que temos hoje. Parabéns por trazer o tema.

Avatar de Maxine

Antes de tudo, agradeço pela leitura atenta e pela profundidade do comentário. Gosto quando um texto gera diálogo. Concordo plenamente que a decisão de ter filhos deveria ser muito mais consciente e que criar uma criança é um compromisso para toda a vida, não apenas até os dezoito anos. O único ponto sobre o qual fiquei refletindo foi se consegui transmitir com clareza minha ideia sobre o papel do pai. Em nenhum momento defendi que o homem deva ser o provedor financeiro por obrigação de gênero; acredito, inclusive, que existam inúmeras configurações familiares igualmente legítimas. Minha reflexão estava restrita à gestação e, principalmente, ao puerpério, um período em que existe uma assimetria biológica inegável. Enquanto a mulher atravessa profundas transformações físicas, hormonais e emocionais, entendo que o parceiro, dentro da realidade de cada família, pode assumir uma parcela maior das responsabilidades práticas; inclusive oferecendo estabilidade financeira, quando necessário, não por ser "função do homem", mas porque estabilidade também é uma forma de cuidado. Minha defesa nunca foi de papéis fixos de gênero, e sim de responsabilidades proporcionais ao momento que cada um está vivendo. Também concordo que grande parte dessas dificuldades nasce da falta de educação e preparo para a parentalidade. No fim, minha única intenção foi lembrar que, durante esse período biologicamente excepcional da vida da mulher, cuidar dela também é uma forma de cuidar do filho. Afinal, um bebê nasce através de uma mulher que também precisa ser acolhida enquanto encontra, novamente, o caminho de volta para si.

Avatar de Dr. Glycon Luiz

Eu até esqueci do título do artigo, também não concordo com o termo "Estamos grávidos' melhor seria "estamos esperando o Bebê", até pela etimologia da palavra. Mas voltando a conversa, especificamente da questão financeira e de recursos. Entendo seu ponto, mas em um cenário planejado pelos tutores, onde a mãe e/ou o pai já tenham tal estabilidade independente do estado físico dos tutores, em uma sociedade de renda bem redistribuída, a estabilidade de recursos "financeira" já deveria estar garantida antes mesmo do nascimento. Então é um problema que precisa ser observado em sua raiz.